quarta-feira, março 25, 2009

Para a minha mãe

E lá se vão quatro anos. As coisas que você me deu estão ficando gastas, bolorentas, rasgando e perdendo a cor. Os vestidos de festa que você fez estão lá no cabide, mas mal cabem, porque eu engordei um monte. Seu perfume está guardado na minha gaveta, ainda cheio, mas eu não tenho coragem de abrir.E tem as cartas, bilhetes, fotos. Eu evito, porque tudo que eles trazem são um monte de lembranças. Lembrar é muito pouco quando se ama tanto.

E as vezes eu tenho medo de esquecer como era sua voz e o gosto do seu bife à milanesa, porque eu já não sei mais qual era sua cor favorita. Acho que era roxo. Era? Não sei qual a relevância de lembrar disso tudo, mas me recuso a não lembrar. Cada coisa que esqueço, é um pouco mais de você que deixo ir embora, e se mais de você for embora, eu acho que não paro de pé. Ainda não aprendi.

Porque tudo isso é placebo, mas foi só o que sobrou. Não dá mais pra te ligar desesperada e perguntar "o que é que eu faço agora????" e fazer exatamente o que você disser. Eu ainda pergunto, mas você nunca responde. Ia ser estranho mesmo se respondesse. Eu ia ter de ligar pra Zibia Gasparetto e tals. E eu até tento pensar no que você faria, mas você tinha de ser essa criatura tão imprevisível só pra deixar tudo muito mais difícil, né?

Nisso a gente errou feio, TÃO feio. Você me ensinou a falar, ler, ser honesta, educadinha e classuda, mas não me ensinou a viver sem você, nem por quatro anos, quatro minutos, quatro séculos, nada. Você tava lá, sempre, sabendo tudo de tudo. E a gente nunca cogitou a hipótese de que não ia ser pra sempre. E agora eu fico aqui, ainda, me largando pelos cantos, fungando e fazendo mimimis que ninguém mais aguenta ouvir.

Sim, eu sei que não adianta nada ficar fazendo mimimi sobre isso. Mas achei que você precisava saber dessas coisas, saber que eu estou me esforçando de verdade e todos os dias pra continuar sendo o que você esperava que eu fosse, mas que eu decidi não ser como você. Porque a falta que você faz é insuperável e imensa e eu não quero fazer essa falta para ninguém. Espero que considere o altruísmo da minha decisão antes de me chamar de covarde :-). E, ainda que eu te odeie por toda essa porra de saudade, eu te amo mais por ser capaz de provocar uma saudade desse tamanho. Sei que você - e mais ninguém - entende o que eu estou dizendo, porque consigo me lembrar da sua voz dizendo. Que alívio.

6 comentários:

Loo disse...

vc é a pessoa que eu "menos" conheço mas que mais me faz chorar

Chu disse...

Fiquei engasgada. Lindo post, Su.

dima disse...

lindo! olhos marejados... um grande beijo para vc

Ioney disse...

Lagriminhas aqui, hein? Ãin. Abraço pra você (eu não posso com essas coisas de saudade de mãe, modeus).

Momento Descontrol disse...

Mulerada sensível! Obrigada, meninas.

LizandraMA disse...

Ai, lembrei tanto da sua mãe. Chorei também, lógico. Sempre tive a nítida impressão de que aquele espírito incrível merecia muito, muito, um corpo saudável. Que triste...